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O que as scale-ups brasileiras aprenderam sobre IA até agora?

Redação Recifes
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O que as scale-ups brasileiras aprenderam sobre IA até agora?

A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma promessa ou uma ferramenta em teste nas scale-ups brasileiras: 70% das empresas reorganizaram áreas ou times em resposta à tecnologia nos últimos 12 meses, enquanto 84% pretendem ampliar os investimentos no próximo ano.

Os dados são do estudo “Inteligência Artificial nas Scale-Ups Brasileiras: Entre a Experimentação e a Transformação”, feito pela Endeavor Brasil e apresentado nesta quinta-feira (27), durante o Startup Summit, no painel “IA em alto crescimento: o primeiro retrato real do Brasil”. A conversa foi mediada por Gustavo Brigatto, fundador do Startups, com a participação de Edson Rigonatti, partner da Astella, e Felipe Almeida, cofundador da Neospace.

O levantamento, que ouviu 133 empreendedores de 125 empresas, mostra que a IA já está no centro de suas companhias, e 63% dizem que a tecnologia é usada de forma intensa da liderança à base. Ao mesmo tempo, 51% ainda não têm nenhuma métrica de negócio atrelada à IA.

Em outras palavras, o medo de ficar para trás (também conhecido pelo termo “FOMO”) ajudou a colocar a IA na agenda e acelerar sua adoção. Mas agora a discussão entre as scale-ups começa a mudar: mais do que provar que usam a tecnologia, as empresas precisam entender o quanto ela está integrada à operação e, principalmente, qual impacto é capaz de gerar no negócio.

A pergunta mudou

Para a Endeavor, aquela pergunta genérica de “sua empresa usa IA?” está perdendo relevância. O ponto agora é outro: se a inteligência artificial desaparecesse da operação hoje, algum processo vital deixaria de funcionar ou a empresa perderia apenas uma conveniência?

A diferença é importante, já que usar IA para acelerar uma tarefa não significa necessariamente transformar o negócio. A transformação, segundo o estudo, acontece quando a tecnologia deixa de ser incremental e passa a fazer parte da operação, exigindo mudanças em dados, arquitetura, integração de sistemas, governança e no próprio desenho dos processos e das funções dentro da empresa.

Os números mostram que esse processo está em andamento. No índice criado pela Endeavor para medir a percepção dos empreendedores sobre a adoção, as empresas tiveram média de 7,2 em estágio de adoção e 7,4 na adoção interna pelos times. Já a medição de impacto ficou em 7,0, com apenas 49% afirmando possuir uma métrica de negócio atrelada à IA. O investimento foi a dimensão com menor pontuação, de 4,6.

“Metade dos empreendedores de scale-ups afirma que a IA está no centro da sua companhia”, aponta a pesquisa. Outros 42% já possuem aplicações com ganhos comprovados, ainda que a tecnologia não seja o eixo central do negócio, enquanto uma parcela menor permanece nos estágios iniciais de experimentação.

IA já está mexendo nos times

O estudo também mostra que a transformação já chegou à estrutura das empresas. Segundo o levantamento, 70% reorganizaram áreas ou equipes nos últimos 12 meses em resposta à IA, enquanto 76% optaram por reduzir contratações ou número de funcionários, uma decisão mais frequente entre as empresas que têm a tecnologia no core.

Mas a adoção não acontece no mesmo ritmo em todas as áreas. Para se ter uma ideia, produto e engenharia lideram, com 77% de adoção, seguidos por atendimento e suporte, com 57%. No outro extremo, RH e jurídico/compliance aparecem com 10% cada.

Outro aprendizado é que colocar a IA no centro do produto não torna automaticamente uma companhia AI-native. Para a Endeavor, esse conceito está ligado à forma como a empresa opera: a inteligência artificial precisa estar embutida como infraestrutura nas decisões, nos processos e nos ciclos de aprendizado do negócio.

Por isso, a organização defende que a responsabilidade pela transformação não fique concentrada em um único time de inovação ou em uma camada abaixo do CTO. A tendência apontada pela pesquisa é um modelo híbrido, com um time técnico mais enxuto responsável por padronização, governança e dados, enquanto C-levels e lideranças assumem a implementação da IA nos desafios específicos de cada área.

Do uso ao retorno

Enquanto 84% dos empreendedores pretendem aumentar os investimentos em IA, 51% não têm nenhuma métrica de negócio associada à tecnologia. Sendo assim, para o estudo, “metade do mercado investe sem saber o retorno”.

Os impactos percebidos também indicam que a IA, por enquanto, tem aparecido primeiro na camada de eficiência. Entre os empreendedores, 40% percebem melhora na satisfação e retenção de clientes, 29% em margem ou EBITDA e 25% em receita. A avaliação da Endeavor é que muitas empresas ainda estão amadurecendo capacidades produtivas e a operação dos times antes de enxergarem efeitos mais claros nos indicadores finais do negócio.

Há, porém, sinais de que empresas com maior intensidade de investimento começam a perceber mais ganhos. Entre aquelas que destinam menos de 1% da receita anual à IA, apenas 9% apontam aumento de receita. Entre as que investem mais de 20%, o percentual chega a 62%. A partir da faixa de 5% da receita anual investida, mais da metade das companhias possui ao menos uma métrica de negócio atrelada à inteligência artificial.

Não é mais sobre vender funcionalidade

Após a apresentação do estudo, rolou uma discussão entre os palestrantes no palco principal do Startup Summit. Edson Rigonatti, da Astella, apontou que IA está mudando o que significa construir e vender um produto. Ou seja, se durante décadas as empresas de software venderam funcionalidades, agora o movimento é em direção à entrega de resultados.

A competição também deixa de acontecer apenas entre softwares semelhantes. Uma empresa pode disputar espaço não só com outra startup, mas com consultorias, modelos de IA e até com o próprio cliente, que acredita ser capaz de construir a solução internamente. “O que é o diferencial?”, questionou Edson durante a palestra, ao discutir como a vantagem competitiva precisa ser repensada nesse novo cenário.

Já para Felipe Almeida, da Neospace, a mudança aparece justamente na relação com grandes clientes. Em vez de vender apenas tecnologia, a empresa busca entregar o resultado — ou, nas palavras usadas durante o painel, o “output”. Mas o desafio é que muitas corporações ainda não estão preparadas para implementar essas tecnologias internamente.

O que vem depois do FOMO?

Se a primeira reação à IA foi testar ferramentas para não ficar para trás, o próximo estágio parece ser bem menos sobre experimentar e muito mais sobre escolher onde a tecnologia pode, de fato, transformar o negócio.

O estudo aponta que as empresas que lideram essa transformação precisam abandonar o entusiasmo e ancorar a tecnologia em teses claras de negócio, como mitigação de riscos e desenvolvimento de novas capacidades estratégicas.

A jornada, ainda conforme o material, passa dos fluxos internos aos processos operacionais e, por fim, à geração de receita, com a ressalva de que tempo economizado, por si só, não se traduz automaticamente em valor para o negócio.

Talvez essa seja a principal lição das scale-ups brasileiras até agora. A IA já deixou de ser apenas uma demonstração de inovação e começou a mudar estruturas, times, produtos e decisões. Depois do FOMO, vem a cobrança pelo ROI (Retorno sobre o Investimento). E, para as empresas que ainda estão aprendendo a separar conveniência de transformação, provar que a IA realmente move os indicadores do negócio pode ser a tarefa mais importante da próxima fase.

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Artigo originalmente publicado em startups.com.br
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